Domingo, 18 de outubro de 2026
Por: TOHRU VALADARES
Caríssimo ledor (a), em 18 de outubro, o Brasil celebra o Dia do Médico, uma data que convida a sociedade a reconhecer a dedicação daqueles que escolheram transformar conhecimento, responsabilidade e compromisso em cuidado com a vida humana. Mais do que homenagear uma profissão, é uma oportunidade de refletir sobre a vocação de quem enfrenta longas jornadas de trabalho, anos de estudo, decisões difíceis e, muitas vezes, o sofrimento de pessoas que encontram no médico sua última esperança. A data também está associada à memória de São Lucas, reconhecido pela tradição cristã como padroeiro dos médicos.
A escolha de 18 de outubro está relacionada à celebração litúrgica de São Lucas Evangelista, cuja festa é comemorada nesse dia pela Igreja Católica. Sua história aproxima duas dimensões fundamentais da experiência humana: a ciência, que busca compreender e tratar as enfermidades, e a fé, que oferece sentido, esperança e consolo diante das fragilidades da existência.
São Lucas ocupa um lugar especial na história do cristianismo. Tradicionalmente identificado como médico, ele é reconhecido como autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos, dois livros fundamentais do Novo Testamento. Seu relato apresenta a vida e o ministério de Jesus e, posteriormente, a expansão da mensagem cristã por meio dos primeiros discípulos.
A referência bíblica mais direta à sua profissão encontra-se na Carta de São Paulo aos Colossenses: “Saúda-vos Lucas, o médico amado” (Colossenses 4:14). A expressão revela a proximidade de Lucas com o apóstolo e constitui o principal testemunho explícito de sua profissão nas Escrituras.
Em outra passagem, Paulo escreve a Timóteo: “Só Lucas está comigo” (2 Timóteo 4:11). Embora esse versículo não mencione sua profissão, demonstra a presença de Lucas ao lado do apóstolo em um momento de solidão e dificuldade. A imagem de um companheiro fiel também inspira uma reflexão sobre a medicina: cuidar de alguém significa, muitas vezes, permanecer presente quando o sofrimento torna o caminho mais difícil.
A tradição cristã atribui a Lucas uma formação intelectual que se manifesta na organização cuidadosa de seus escritos. No início de seu Evangelho, ele explica que procurou investigar os acontecimentos com atenção antes de registrá-los (Lucas 1:1-4). Essa preocupação com a apuração e a exposição ordenada dos fatos permite estabelecer uma reflexão sobre a importância da observação, do conhecimento e da responsabilidade valores igualmente indispensáveis à prática médica.
Lucas também apresenta Jesus como aquele que se aproxima dos doentes, dos pobres, dos marginalizados e daqueles que a sociedade frequentemente deixa à margem. Em Lucas 5:31-32, Jesus declara que os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes, e afirma ter vindo chamar os pecadores ao arrependimento. A passagem utiliza a figura do médico para explicar a missão espiritual de Cristo, mostrando que o cuidado começa pelo reconhecimento da necessidade de quem sofre.
Essa imagem atravessa os séculos: assim como o médico procura identificar uma enfermidade e oferecer tratamento, o cristão é convidado a reconhecer as feridas humanas e responder a elas com misericórdia, sem abandonar a verdade, a responsabilidade e a justiça.
A medicina contemporânea exige muito mais do que domínio técnico. O profissional precisa acompanhar descobertas científicas, interpretar exames, avaliar riscos, tomar decisões complexas e lidar com situações em que nem sempre existe uma resposta simples. São anos de formação, especializações, atualização permanente e, para muitos, plantões prolongados que comprometem o descanso e a convivência familiar.
Por trás do jaleco, existe uma pessoa que também sente medo, cansaço, tristeza e insegurança. O médico pode ser aquele que comunica uma notícia difícil pela manhã, acompanha um nascimento à tarde e, durante a madrugada, luta para preservar a vida de alguém que nunca conheceu. Em sua rotina, há responsabilidades que não se encerram quando termina o expediente, pois determinadas decisões e experiências permanecem na memória e no coração.
Por isso, reconhecer o médico significa compreender que ele também precisa de condições dignas de trabalho, descanso, apoio emocional e respeito. Não se pode exigir empatia de quem cuida sem reconhecer a humanidade de quem está cuidando.
A fé pode ser uma fonte de força para muitos profissionais, assim como a filosofia, a família, a espiritualidade e outras convicções pessoais podem oferecer recursos para enfrentar os desafios da profissão. Entretanto, é importante reconhecer que os médicos possuem diferentes crenças, e que a qualidade da assistência deve estar fundamentada no conhecimento científico, na ética, no respeito à autonomia e na dignidade de cada paciente.
Não seria correto afirmar, sem pesquisas que sustentem essa conclusão, que os médicos de hoje são necessariamente mais religiosos ou empáticos do que os de outras épocas. A história da medicina reúne profissionais religiosos, agnósticos e ateus, e a ciência avançou por meio do trabalho de pessoas com diferentes visões de mundo. O que merece ser celebrado é a possibilidade de uma convivência respeitosa entre ciência, espiritualidade e humanidade, sem que uma precise anular a outra.
A empatia não depende de uma crença religiosa específica, mas pode encontrar na fé uma inspiração para quem a professa. Da mesma forma, a ciência não se opõe necessariamente à espiritualidade. Quando respeitados os limites de cada campo, ambas podem participar, de maneiras diferentes, da experiência humana diante da doença, da recuperação, da finitude e da esperança.
Neste Dia do Médico, o exemplo de São Lucas nos convida a olhar para além dos diagnósticos, das receitas e dos procedimentos. O paciente não é apenas um caso clínico: é alguém com uma história, uma família, medos, expectativas e, muitas vezes, dificuldades que não aparecem nos exames. Um gesto de atenção, uma explicação compreensível, uma escuta sem julgamentos e uma palavra respeitosa podem não substituir o tratamento, mas fazem diferença na maneira como a pessoa atravessa o adoecimento.
Aos médicos, fica o convite para cultivar a empatia sem perder a firmeza profissional, exercer a resiliência sem naturalizar a exaustão e preservar a sensibilidade sem deixar de lado a evidência científica. Ser resiliente não significa suportar sozinho todas as pressões, ignorar o próprio sofrimento ou aceitar condições inadequadas de trabalho. Significa também reconhecer limites, buscar apoio e compreender que cuidar de si é parte da responsabilidade de continuar cuidando dos outros.
À sociedade, cabe abandonar a ideia de que o médico é infalível ou de que sua profissão o torna imune às dificuldades. A medicina é uma atividade humana, exercida por profissionais que precisam de valorização, educação continuada, recursos adequados e relações de trabalho que permitam oferecer uma assistência segura e digna.
Aos que encontram na fé uma fonte de inspiração, São Lucas permanece como símbolo de uma vida dedicada ao conhecimento, à fidelidade e ao serviço. Aos que seguem outras convicções, seu legado também permite uma reflexão universal: a grandeza de uma profissão se revela na responsabilidade com que ela serve à humanidade.
Neste 18 de outubro, fica o nosso agradecimento a cada médico que escolheu essa missão. Obrigado pelas noites em claro, pelos anos de estudo, pela busca constante de conhecimento, pelas decisões difíceis e pela dedicação às pessoas nos momentos de maior vulnerabilidade. Obrigado por cada vida acolhida, por cada diagnóstico investigado com responsabilidade, por cada tratamento conduzido com competência e por cada palavra de esperança oferecida com sinceridade.
Que a memória de São Lucas inspire os profissionais da medicina a unir conhecimento, ética, empatia e compromisso com a vida. E que nunca nos esqueçamos de que, antes de ser uma profissão de prestígio, a medicina é uma responsabilidade profundamente humana: cuidar de pessoas em sua fragilidade, respeitar sua dignidade e trabalhar, todos os dias, para que a vida tenha mais saúde, esperança e humanidade.
Feliz Dia do Médico! Que a ciência ilumine suas decisões, que a empatia acompanhe seus gestos e que a gratidão daqueles que recebem seus cuidados fortaleça a missão que vocês escolheram exercer. (Entre em nosso Instagram e sugira um tema para os próximos artigos e concorra a brindes; @teologotohru).
Paz e Bem.
(*) Bacharel em Teologia Interconfessional, Filosofia, pós graduado em Filosofia religiosa, Mediação de conflitos, Aconselhamento cristão e capelania.