Terça, 21 de julho de 2026
por Ricardo Dias
Colunista político

O coronel Sandro voltou a ser o prefeito de Valadares. Ele tomou o governo à força? Não! Ele também não ganhou uma nova eleição, tampouco destituiu os vereadores de seus cargos. Foi um juiz. Veja o que não estão falando sobre esse evento histórico na cidade.
Coronel Sandro assumiu o governo após vencer uma eleição dura. Teve mais de 70 mil votos, um número expressivo. Porém, muitos confundem governo com poder. Ele conquistou o primeiro, mas o segundo, ficou evidente já na escolha (talvez imposição) do secretariado, que pertenceria ao grupo econômico que o ajudou. Eu divido a cidade em três grupos: empresários, ruralistas e médicos.
Valadares, na minha análise — e não vejo outra melhor —, tem cinco partidos informais: os três que já citei, somados à esquerda radical e ao maior e mais desorganizado de todos, a direita ideológica. Coronel Sandro foi eleito com os votos da massa de eleitores dessa direita, mas financiado por empresários e ruralistas.
Quando vi Mourão, um líder ruralista, sendo escolhido como vice na eleição, já senti uma desvantagem política nessa relação. Mourão tem história na cidade. Possui um eleitorado fiel, principalmente no campo, por suas conquistas e pela briga contra o radicalismo marxista. Mas é de outro tempo. Possui práticas políticas engessadas, clientelistas, típicas do velho sistema brasileiro, o liberalismo de compadrio. Algo que, aparentemente, a população quer mudar. E, por isso, ele estava fadado a permanecer na história, até Sandro, inocentemente, resgatá-lo.
Então ficou assim: Sandro tinha a caneta, mas caneta não cria mundos. Logo, governava para quem detém o poder: os empresários ricos. Até o ano eleitoral bater à porta e os interesses exigirem obediência. Sandro não obedeceu. Acordos certamente foram quebrados, e o embate entre poder e governo se mostrou da forma mais dramática. O governo, porém, quase sempre perde nessas situações.
Os vereadores tomaram uma decisão política. Não brigaram contra o poder. Trocar o governo é fácil; basta um impedimento. Desculpa para isso é a coisa mais fácil de arranjar. O Poder Legislativo tomou a decisão, e isso pacificou a cidade. Até a barriga de um juiz entrar no meio.
Aqui é preciso fazer uma distinção, separar o mundo político do jurídico. Juridicamente, pode-se argumentar qualquer coisa. Mas o fato político era que, naquela ocasião, Sandro perdeu a governabilidade. A decisão dos vereadores, embora eu não concorde com ela, nesse aspecto foi politicamente racional. E veja a sucessão de erros.
A Câmara de Vereadores, ao meu ver, retirou um prefeito eleito pelo povo de forma moralmente injusta. Entretanto, os vereadores, também escolhidos pelo povo, são legítimos para fazer esse julgamento político. Na dimensão política, o ato foi legítimo. E um juiz, sem nenhum voto na cidade, decidiu contra todos os interesses políticos da cidade. Uma pessoa em Brasília determina e a eleição é rasgada.
Aparentemente tem uma contradição nessa análise, mas é só aparência. Se considero o impedimento injusto seria, então justa a decisão do juiz. Mas são coisas diferentes. Não gosto da forma que foi feito o impedimento só que minha vontade não pode determinar as vontades dos outros. A norma determina que são as convicções dos vereadores e não minha. Mesmo não gostando, eu devo me sujeitar a ela, eu não fui eleito. O mesmo pensamento um juiz deveria ter.
Aqui mora o perigo: para que votamos? A vontade popular já não vale nada nessa dita democracia? Um poder perdeu completamente o respeito pelos demais. Agora, não há segurança jurídica para nada. Os acordos políticos arriscados, deverão considerar as reviravoltas, os interesses de juízes e pior de juízes políticos. Esse padrão está ocorrendo no Rio de Janeiro, em Roraima e, agora, em Valadares. Os políticos perderam completamente os culhões. A democracia acabou.
Desejo boa sorte ao reconduzido Sandro. Desejo que acordos sejam feitos para que a cidade tenha paz política e, assim, possa evoluir em liberdade e qualidade de vida para a população