Wednesday, 03 de June de 2026



Uma pesquisa inédita ouviu mais de 57 mil professores e professoras que ensinam matemática na educação básica pública brasileira e revela que mais de 94% dos professores no cenário nacional consideram seu trabalho significativo e com propósito. O levantamento, iniciativa do Ministério da Educação (MEC), em articulação com Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), e contou com apoio técnico do Itaú Social, Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Porvir e Rede Conhecimento Social (ReCoS), mostra ainda que mais de 91% dos docentes estão satisfeitos com o próprio desempenho profissional.

A “Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática” mobilizou educadores de mais de 24 mil escolas, em 75% dos municípios brasileiros, oferecendo um panorama abrangente sobre crenças, práticas pedagógicas e necessidades formativas desses profissionais.

“Ouvir quem está na sala de aula é essencial para qualificar qualquer política pública. Os professores que ensinam matemática expressam seu forte compromisso com os estudantes e reconhecem o valor do seu trabalho. Ao mesmo tempo, os dados mostram que esse propósito precisa vir acompanhado por melhores condições na formação inicial e continuada, nos currículos, avaliações, materiais e apoio pedagógico. A Escuta aponta caminhos para que as políticas de fato promovam práticas cada vez mais eficazes na garantia do direito de aprender matemática”, destaca Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social.

“Essa escuta nos mostra que os professores de matemática querem seguir aprendendo, aperfeiçoando suas práticas e construindo novas estratégias para apoiar cada estudante. Há um interesse muito grande pela formação continuada e pelo fortalecimento do ensino da matemática nas escolas públicas, e isso é um sinal importante para a construção das políticas educacionais”, afirma a secretária de Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt.

Os resultados serão apresentados oficialmente durante o 1º Seminário Internacional do Compromisso Nacional Toda Matemática e Reunião Técnica com as Redes, realizado entre os dias 1º e 3 de junho, em Brasília. A Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática integra o Compromisso Nacional Toda Matemática (CNTM), política pública instituída pelo Decreto nº 12.641, de 1º de outubro de 2025, que estrutura suas ações em cinco eixos estratégicos: governança e gestão, formação de profissionais da educação, orientação curricular, avaliação da aprendizagem e reconhecimento e compartilhamento de boas práticas.

Mais do que um diagnóstico sobre a realidade dos docentes brasileiros, a pesquisa oferece evidências para qualificar e orientar iniciativas já em andamento, como a atuação do Comitê Nacional Gestor do Compromisso Nacional Toda Matemática (COMAT) e da Rede Nacional de Ancoragem da Estratégia de Implementação do Compromisso Nacional Toda Matemática (Renamat); cursos e especializações voltados à formação docente; a produção de cadernos pedagógicos e guias de orientação curricular e avaliação; além de ações de valorização, como a Olimpíada de Professores de Matemática do Brasil e a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e Privadas.

Relação com aprendizagem dos estudantes e com seus pares

Segundo a pesquisa, praticamente todos os docentes afirmam sentir grande satisfação quando os estudantes aprendem, sendo que cerca de oito em cada dez concordam totalmente com essa afirmação. Além disso, nove em cada dez professores acreditam que todos os estudantes podem aprender matemática. Porém, apenas quatro em cada dez expressam concordância plena, indicando uma crença não totalmente consolidada nesse sentido.

A percepção de capacidade para ensinar também apresenta nuances. Mais de 74% dizem que, com esforço, conseguem ensinar até mesmo alunos com maior dificuldade, mas apenas cerca de 30% concordam totalmente com essa afirmação. De forma semelhante, embora a ampla maioria afirma conseguir escolher estratégias pedagógicas adequadas, apenas dois em cada dez demonstram plena segurança nessa escolha.

Já sobre as condições sistêmicas de apoio para garantir o aprendizado dos estudantes, o estudo mostra que sete em cada dez docentes reconhecem que também são responsáveis quando o estudante não aprende, porém apenas um em cada dez concorda totalmente com essa ideia.

As necessidades de desenvolvimento também se manifestam no domínio de conteúdos. Nesse sentido, a proporção de educadores que dizem não se sentir confiantes em alguns conceitos de matemática é maior nos Anos Iniciais (32%), diminuindo nos Anos Finais (14%) e no Ensino Médio (16%).

Apesar dessas tensões, o ambiente escolar aparece como um fator de sustentação para os professores. Mais de 90% dos participantes afirmam contar com o apoio da gestão escolar e com relações profissionais de confiança, mas apenas cerca de 20% demonstram confiança plena entre os colegas.

Práticas desenvolvidas na sala de aula

Mais de 81% dos professores ouvidos afirmam relacionar os conteúdos à vida cotidiana em todas ou quase todas as aulas. Na mesma linha, cerca de 80% a 85% dizem comunicar regularmente os objetivos das aulas e articular novos conteúdos aos conhecimentos prévios dos alunos.

As aulas expositivas seguem como elemento central, especialmente nas etapas mais avançadas. Nesse sentido, 74% dos docentes de 1º a 5º anos utilizam esse formato com frequência, índice que sobe para 85% nos Anos Finais e 89% no Ensino Médio.

As atividades mais complexas, como projetos práticos, desafios e resolução de problemas, aparecem com menor regularidade: cerca de 57% a 59% dos professores das diferentes etapas e segmentos afirmam utilizá-las na maior parte das aulas. Ainda mais restritas, as práticas de pesquisa orientada são adotadas com frequência por apenas 33% a 35% dos educadores, que dizem propor investigações em livros, bibliotecas ou acervos digitais.

Formação inicial e prática pedagógica

Nos Anos Iniciais, 54% dos professores de matemática relatam base sólida em fundamentos da educação, mas apenas 39% em didática e 40% em conteúdos específicos; em equidade e inclusão, 35% não tiveram formação e só 16% tiveram aprofundamento.

Já nos Anos Finais e no Ensino Médio, cresce o domínio de conteúdo (70% a 72% com formação aprofundada), mas a didática segue abaixo (61% e 63%, respectivamente). Em relação à avaliação da aprendizagem, 42% indicam necessidade de aprofundamento. As lacunas em equidade persistem (33% a 39% sem formação e menos de 20% com aprofundamento). Temas como gestão de sala e recomposição de aprendizagens aparecem de forma mais equilibrada, embora ainda predominem formações introdutórias.

Preparação para o ensino

De acordo com a escuta nacional, os professores que ensinam matemática na educação básica demonstram percepção de preparo para conteúdos e didática, especialmente nas etapas finais, mas indicam fragilidades em áreas como equidade, inclusão e recomposição da aprendizagem.

Nos Anos Iniciais, os níveis de confiança são mais moderados. 85% dos educadores se sentem preparados para ensinar conteúdos de matemática e 76% para a didática, enquanto 81% relatam preparo para gestão da sala de aula. Já em aspectos mais específicos, como recomposição de aprendizagens, o índice cai para 63%, e para 56% quando o tema é equidade racial, de gênero e inclusão.

Nos Anos Finais e Ensino Médio, a percepção de preparo é mais elevada, sobretudo no domínio de conteúdo. 97% e 98% dos participantes da pesquisa, respectivamente, afirmam se sentir preparados para ensinar matemática na etapa em que atuam. Na didática, os índices também são altos, com 93% em ambas as etapas.

Outros aspectos pedagógicos seguem tendência semelhante. A preparação para avaliação da aprendizagem é reconhecida por 83% dos professores dos Anos Finais e 82% do Ensino Médio, enquanto a gestão da sala de aula alcança 90% e 86%, respectivamente. Na recomposição de aprendizagens, os percentuais se mantêm em 80% nas duas etapas.

Apesar dos indicadores positivos, os desafios persistem em temas ligados à redução de desigualdades. Apenas 60% dos docentes de 6º a 9º ano e 57% do Ensino Médio se consideram preparados para trabalhar com equidade e inclusão, representando os menores percentuais entre todos os aspectos avaliados.

Sobre a pesquisa

A escuta nacional foi desenhada para captar, de forma abrangente e diversa, as percepções de docentes da educação básica pública em todo o país. A coleta de dados ocorreu entre 17 de março e 6 de abril de 2025, por meio de questionário online de autopreenchimento, respondido de forma individual, autônoma e anônima por 57 mil professores.

É importante destacar que os resultados da Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática que constam no relatório nacional se baseiam em respostas de docentes de 3.592 escolas sorteadas para compor o plano amostral. Esse conjunto de respondentes é o que representa, de forma equilibrada, as diferentes etapas da educação básica, as regiões do país e as dependências administrativas e, por isso, foi usado na exposição e análise dos achados da pesquisa.

Participaram profissionais que atuavam, em 2024 ou 2025, nos ensinos fundamental e médio, incluindo a educação profissional e tecnológica de nível médio, abrangendo tanto aqueles polivalentes dos Anos Iniciais quanto os licenciados dos Anos Finais e do Ensino Médio. O instrumento foi disponibilizado pela internet, permitindo ampla participação em diferentes contextos escolares